sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Ler ou copiar um texto

O efeito de uma estrada campestre não é o mesmo quando se caminha por ela ou quando a sobrevoamos de avião. De igual modo, o efeito de um texto não é o mesmo quando ele é lido ou copiado. O passageiro do avião vê apenas como a estrada abre caminho pela paisagem, como ela se desenrola de acordo com o padrão do terreno adjacente. Somente aquele que percorre a estrada a pé se dá conta dos efeitos que ela produz e de como daquela mesma paisagem, que aos olhos de quem a sobrevoa não passa de um terreno indiferenciado, afloram distâncias, belvederes, clareiras, perspectivas a cada nova curva [...]. Apenas o texto copiado produz esse poderoso efeito na alma daquele que dele se ocupa, ao passo que o mero leitor jamais descobre os novos aspectos do seu ser profundo que são abertos pelo texto como uma estrada talhada na sua floresta interior, sempre a fechar-se atrás de si. Pois o leitor segue os movimentos de sua mente no vôo livre do devaneio, ao passo que o copiador os submete ao seu comando. A prática chinesa de copiar livros era assim uma incomparável garantia de cultura literária, e a arte de fazer transcrições, uma chave para os enigmas da China.

Walter Benjamin, in 'Rua de Sentido Único'

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Nova York!



Nova York é uma cidade onde a vida pulsa diferente. Frenéticas e encantadoras, suas ruas desenham extensões horizontais e verticais, estonteando nossos olhos com a multiplicidade de cores, luzes e olhares a qualquer hora do dia ou da noite. A vida lá não para. Segue o ritmo da sua pulsação acelerada e voluptuosa. Aberta a toda hora para a simultaneidade de cenas que se desdobram o tempo todo, ela faz com que nos sintamos mais num cenário do que propriamente numa cidade. Tudo é monumental: shows, prédios, pratos, sabores, desejo de consumo. Foi o poeta Walt Whitman quem melhor a definiu: "Cidade dos portos e das lojas, cidades das fachadas altas de mármore e ferro, orgulhosa e apaixonada cidade - corajosa, louca, extravagante cidade!".

A ilha de Manhatan, o candado centro, é circundada pelo Harlem River a norte/nordeste; East River a leste; Parte superior da baía de New York ao sul e Hudson River a oeste. Embora tenha uma área de só 52km², sua extensão cresce a todo instante diante dos nossos olhos, tantos são os apelos que alongam seus percursos. Seus prédios formam o segundo maior aglomerado de edifícios do planeta, superado apenas por Hong Kong, na China, e seguida por São Paulo, no Brasil. A ilha abriga os maiores arranha-céus da cidade, que também estão entre os maiores do mundo. Podem-se citar o Empire State, o Bank of America Tower, o Chrysler Building, entre outros muitos. Depois do ataque às torres gêmeas, o Empire State voltou a reinar como o mais alto prédio da ilha. A ausência das torres do World Trade Center está devidamente marcada no buraco em meio à clareira. 8 anos depois, carros ainda trabalham no local que parece soterrar o mistério e a dor de tantas vidas ceifadas.

A despeito dessa ferida, cravada na ‘pele da cidade', um coração multicolor pulsa numa energia louca, desordenada e maravilhosa. Andar pelas ruas da Broadway, sentar no Times Square e contemplar as paisagens de neons são formas de esquecer que o tempo passa e há mundos diferentes do lado de fora. Dá para esquecer a vida ao andar pelo Central Park, percorrer seu túneis e imaginar as histórias que abriga e abrigou, ao olhar os vitrais e as esculturas verdes do Tavern On The Green. John Lennon parece viver na atmosfera insólita do misterioso Dakota Building, em frente ao qual, dentro do Park, repousa um Mosaico montado no jardim Strawberry Fields em homenagem a ele. Dá para sonhar tomando um drink no River Café, na saída da ponte do Brooklyn, contemplando o pôr do sol e compondo com os olhos um cartão postal vivo. Da torta de maçã do Plazza ao sanduíche dos Starbucks das esquinas, tem-se a perfeita noção de que se está num lugar ímpar. Na City Tour, o Empire State parece impossível com seu poder de concreto; Chinatown, Soho, Meatpack desdobram uma arquitetura muito particular, com seus prédios de escadarias externas e hera nas paredes.(Não quis entender, entretanto, porque, foi na rua dos brasileiros unicamente onde vi lixo pelas calçadas). As caminhadas pelo Battery Park e o olhar sobre a Estátua da Liberdade, os musicais da Broadway e os shows de jazz... dar conta de todas as imagens não é tarefa fácil, sobretudo quando se gosta de parar os olhos num só ponto e andar a pé.

A Barnes e Nobles abriga um acervo de livros, CDs e DVDs inacreditável. Os museus abrigam monumentos indispensáveis aos olhos, não dá pra morrer antes de ver as esculturas gregas e egípcias do Metropolitan ou sem visitar o Moma. Tanto mais há para ver que uma semana se esgota nos primeiros passos. Bom demais andar de chilenas havaianas, calça desbotada sob o sol e o vento frio. Mas a culinária... ah, não se compara à nossa. Ir ao Sardis só vale para ver o acervo de fotos das celebridades americanas; o esbarro em alguma não é impossível. No Pastis do Meatpack a promessa de qualidade se esvai, mas valem os olhares dos belos moços que ficam no bar. Na penumbra do Oliver Garden, a visão da Broadway acelerada enche os olhos.

Explosão de cores e ritmos. Vibração, efervescência... em Nova York a vida pulsa diferente, impossível não sentir a volúpia dos seus lábios a nos seduzir! Quem vai não esquece...

sábado, 29 de agosto de 2009

Rejeição

Um dos sentimentos mais nocivos à autoestima ser humano é a rejeição. Não me refiro aqui exatamente à hostilidade ou recusa, mas à falta de correspondência de um sentimento no nível e na intensidade desejados. Aceitar os desencontros e assimilar a certeza de que você chegou muito tarde são atitudes difíceis para quem sonha, idealiza e sente no coração que não há ninguém no mundo igual àquela pessoa que despertou os seus sentidos, que tomou conta dos seus pensamentos e da sua alma.

O mais dramático é que a gente sabe que a outra pessoa não tem culpa de não sentir o que a gente sente. Amor não se cobra, não se impõe. Pior... não se conquista. Quando se bate o olho se sabe, a química é natural. A sedução existe para prazeres momentâneos, não para o amor, aquele que a gente quer para sempre, na alegria e na tristeza; aquele que a gente deseja para rolar na grama, beijar muito ou simplesmente recostar a cabeça no ombro e ficar em silêncio.

Podemos até nos iludir, acreditar que a força do pensamento poderá mudar o rumo dos acontecimentos. Podemos fazer de conta que não percebemos o descaso espontâneo do outro, aliás, nem ele percebe, mas fica evidente, nas situações graves, a pouca importância que temos. Um dia, entretanto, é inevitável: acordamos e não encontramos a venda que colocamos nos olhos para não enxergar a realidade.

Alimentar esperanças, nesses casos, não é ser otimista ou potencializar energias positivas. É querer enganar-se, adiar o sofrimento, correndo o risco de uma decepção maior. Bobagem não querer experimentar a dor da perda... não se pode perder quem nunca se teve. O pior é quando a outra pessoa, para 'nos poupar', embora deixe claras as impossibilidades que preexistiam ao primeiro encontro, mantém o sinal verde aceso e, de vez em quando, engata a primeira. Como não tem intenção de seguir, na iminência de dar a partida, puxa o freio de mão e coloca o semáforo no amarelo. Nunca no vermelho, para não ‘magoar’ com a verdade. Sim, como diz Carpenejar, franqueza machuca. Mas iludir machuca mais, porque acumula sonho, desperta expectativa, e a realidade cobra caro a quem se aventura nessas searas. Sonhar é bom, é necessário, mas não devemos tirar os pés do chão, porque nem sempre a queda das nuvens é nas águas... às vezes é em terreno pedregoso.

É preciso que sejamos fortes para entender os sinais. Quando o amor existe, ele se concretiza debaixo de chuva ou sol, calmaria ou temporal. Sempre se dá um jeito de superar as dificuldades... quando isso não ocorre, é porque apenas estamos sendo protegidos pela gentileza do outro. Aí só nos resta acordar. Amor não correspondido é ferida traiçoeira e não devemos alimentá-lo. Não devemos, com a nossa ânsia de ser amados, interpretar gestos de carinho como possibilidade de viver o nosso sonho. Não devemos esquecer o tempo em que ficamos diante do sinal vermelho com a primeira migalha que nos é lançada pela janela. Por mais cruel que seja, é preciso ter coragem de admitir que amamos quem ama outra pessoa e essa realidade não podemos mudar. A ilusão acaba, mas a vida continua e novas histórias precisam ser escritas... e vividas!

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Primeiro olhar

É aquele momento em que a Vida passa da sonolência para a alvorada. É a primeira chama que ilumina o íntimo mais profundo do coração. É a primeira nota mágica arrancada das cordas de prata do sentimento. É aquele momento instantâneo em que se abrem diante da alma as crônicas do Tempo, e se revelam aos olhos as proezas da noite, e as vozes da consciência. Ele é que abre os segredos da Eternidade para o futuro. É a semente lançada por Ishtar, deusa do Amor, eespargida pelos olhos do ser amado na paisagem do Amor, depois regada e cuidada pela afeição, e finalmente colhida pela alma. O primeiro olhar vindo dos olhos do ser amado é como o espírito que se movia sobre a face das águas e deu origem ao céu e à terra, quando o Senhor sentenciou: "E agora, vive!".


(Khalil Gibran)

Adotarei o amor

Adotarei o amor por companheiro e o escutarei cantando, e o beberei como vinho, e o usarei como vestimenta. Na aurora, o amor me acordará e me conduzirá aos prados distantes. Ao meio dia, me conduzirá à sombra das árvores onde me protegerei do sol como os pássaros. Ao entardecer me conduzirá ao poente, onde ouvirei a melodia da natureza despedindo-se da luz, e contemplarei as sombras da quietude adejando no espaço. À noite, o amor me abraçará, e sonharei com os mundos superiores onde moram as almas dos enamorados e dos poetas. Na primavera, andarei com o amor, lado a lado, e cantaremos juntos entre as colinas; e seguiremos as pegadas da vida, que são as violetas e as margaridas; e beberemos a água da chuva, acumulada nos poços, em taças feitas de narciso e lírios. No verão, me deitarei ao lado do amor sobre camas feitas com feixes de espigas, tendo o firmamento por cobertor e a lua e as estrelas por companheiras. No outono, irei com o amor aos vinhedos e nos sentaremos no lagar, e contemplaremos as árvores se despindo das suas vestimentas douradas e os bandos de aves migratórias voando para as costas do mar. No inverno, me sentarei com o amor diante da lareira e conversaremos sobre os acontecimentos dos séculos e os anais das nações e povos. O amor será meu tutor na juventude, meu apoio na maturidade, e meu consolo na velhice. O amor permanecerá comigo até o fim da vida, até que a morte chegue, e a mão de Deus nos reúna de novo.
(Khalil Gibran)

Ainda a Culpa

Culpa! Culpa! Culpa! Sempre a palavra culpa, essa marca que algum diabo inculcou no ser humano. Faz parte dos genes dele. Culpa. Somos, todos, semoventes tristes, perseguidos por culpas reais, irreais, fantásticas, conscientes, inconscientes, verdadeiras, falsas, impostas pelos outros. Culpa! Culpa! Culpa! Todos se culpam ou culpam os demais. Culpar-se, preferência mundial... Culpa, ó trágico engano de não se sabe que ancestral! Chama-se de culpa o que às vezes é causa. Fulano não é o culpado de tal ato. Fulano foi à causa de tal ato. Troque culpa por causa e verá o mundo melhor. Causa não é culpa. Chama-se de culpado quem às vezes é, tão somente, o responsável de algo. Responsável, sim, não culpado! Culpa não é responsabilidade. Culpa é algo maior e mais terrível, por isso, raro. Culpar não é tarefa dos homens. Cabe aos deuses. E por causa da troca de palavras (causa por culpa) sem consciência de que se está trocando conceitos seriíssimos, pessoas há que desperdiçam sua passagem pelo mundo atormentadas pela culpa. Nem é mais o mundo, que um grande tanque cheio de culpados imaginários e reais e de seres a quem ensinaram sentir-se (quando muito) causadores ou responsáveis. Maldita seja a noção de culpa com que gerações precedentes nos marcaram e esmagaram! Maldito seja quem chama causa de culpa e quem se aceita culpado apenas por ser o responsável! Culpa é a carga genética mais dolorosa que inculcaram nos homens e nos povos. Culpados são condenados ao inferno em vida. É preciso acender uma estrela e banir o sentimento de culpa do coração e do inconsciente humano! É preciso mergulhar uma margarida nas águas salgadas do mar e com ela purificar os que se sentem culpados, ou os que já nasceram culpados do que ainda não fizeram, ou os que foram gerados na culpa por pais portadores de penas por eles não controladas! Culpa é raro e sério demais para ser vulgarizada assim. É culpado quem mata. Não é culpado quem ofende. Não é culpado quem defende. Não tem culpa quem não pode fazer mais do que faz ou quem foi relegado à miséria, à ignorância, à morte em vida. Não é culpado quem não consegue. Não é culpado o que fracassa. Não é culpado nem o que erra se o faz de boa fé.Culpa é assunto dos deuses que nos punem por interferir nele. E a dor ou a paralisia do ser, decorrentes dessa punição são internas e paralisam vidas inteiras.
(Arthur da Távola)

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Amor é enigma?

Optar é renunciar. Entregar-se, por exemplo, a um amor é abandonar outros. E, do que se renuncia e abandona, pode provir, depois arrependimento.

Afastar-se de um amor, ainda que, opção feita por lúcidas razões, pode gerar, adiante, a frustração pelo que se deixou de viver.

Os casos de amor vivem rondados por frustração ou arrependimento. Não o amor, que é íntegro, irrefutável, cristalino e indubitável: mas os amantes seus portadores. Quase sempre o tamanho do amor é maior que o dos amantes.

O que cerca as pessoas que se amam é sempre uma teia de limitações que o leva à disjuntiva: frustração ou arrependimento. Ou quem ama se entrega ao sentimento e se atira nos braços do outro para, depois, se arrepender do que abandonou para entregar-se ao amor, ou se afasta, cheio de lucidez, para, adiante, sentir frustração pelo que deixou de viver.

Estes estão na categoria assim definida de modo cruel mas lúcido por Goethe: "no amor, ganha quem foge...Ou como disse o grande Orizon Carneiro Muniz: "no amor, é mais forte quem cede".

Na juventude tudo isso fica confuso porque esta é uma etapa da vida envolta em uma névoa amorosa que a torna radical na busca da felicidade.

O jovem ainda não se defrontou com as terríveis e dilacerantes divisões internas de que é feita a tarefa de viver e amar, aceitando as próprias limitações, confusões, os caminhos paralelos e contraditórios das escolhas, dentro de um todo que, para se harmonizar, precisa viver as divisões, os sofrimentos e os açoites das mentiras e enganos que conduzem as nossas verdades mais profundas.

Séculos de repressão do corpo e de identificação do prazer com o pecado ou o proibido fizeram uma espécie de cárie na alma.

É um buraco, um vazio, uma impossibilidade viver o que se quer, uma certeza antecipada de que o amor verdadeiro gera ou arrependimento ou frustração.

Viver implica, pois, aceitar essa dolorosa e desafiante tarefa: a de enfrentar o amor como a maior das maravilhas e que se nos apresenta sob a forma de enigma.

Tudo o que se move dentro do amor está carregado de enigmas. E com o enigma dá-se o seguinte: enfrentá-lo não é resolvê-lo. Mas quando não se o enfrenta, ele (enigma) nos devora.

Enfrentar o enigma, mesmo sem o deslindar, é aquecer e encantar a vida, é aprender a viver; é amadurecer. Exige trabalho interior penoso, grandeza, equilíbrio e auto-conhecimento.

O contrário não é viver: é durar.

Arthur da Távola